Há poucos dias, em conversa com uma amiga muito querida que está grávida pela primeira vez, abordou-se o tema da amamentação. Eu disse-lhe um pouco do que penso sobre o assunto e, desde então, tenho andado numa conversa comigo própria e este post começou a martelar-me a cabeça.
Antes de mais, convém dizer que, pessoalmente, sou o mais possível a favor da amamentação. O meu filho mais velho mamou quase até aos três anos e o mais novo vai no mesmo caminho. Amamentei em exclusivo até depois dos seis meses, em regime livre (livre mesmo, em qualquer lado...), babywearing, co-sleeping, etc. Como diz a outra, "you can't get more granola than this"...
Os benefícios da amamentação também estão agora escarrapachados por todo o lado, desde as publicações da especialidade, pesquisas mais recentes, livros, sites sérios, às revistas "para as mamãs" (expressão que me dá verdadeira urticária)...
Com tudo isto, quase parece que uma mãe, que opte por não amamentar, leva logo um selo de incompetente, ou pior, de má mãe.
Isto é um perfeito disparate! Por mais que amemos os nossos filhos, não nos podemos reduzir à dimensão de mães, somos mulheres, somos pessoas. Se uma mulher não gosta de amamentar, não se sente bem nessa posição, porque deverá sentir-se obrigada a fazê-lo? Eu acredito que tudo o que faz contrariada, não traz benefícios a ninguém. Mais cedo ou mais tarde, acaba por cobrar o seu preço e, quase sempre, é um preço mais alto do que o suposto benefício.
Depois, há os mitos: o leite era fraco demais, não tinha leite suficiente, ele ficava com fome, ela não ganhava o peso, etc., etc.
Está mais do que estudado que, a não ser que haja algum problema de saúde grave, que afecte especificamente essa área, todas as mulheres têm capacidade de produzir leite suficiente para alimentar o seu bebé (ou até os seus bebés) e que não há leites maus.
Ora, a verdade é que, no princípio, nem sempre é fácil. Há bebés que têm uma "boa pega", outros precisam de ser ensinados. Por outro lado, há mulheres que têm a subida de leite antes e outras depois. Também há períodos nos primeiros meses do bebé (muitas vezes, perto do 2.º mês) em que o corpo leva algum tempo a adaptar-se ao apetite do pequeno. E, quase sempre, amamentar o primeiro filho é um pouco (às vezes, não tão pouco) doloroso.
Ante tantas dificuldades, às vezes, é com um certo alívio que algumas mães ouvem do profissional de saúde que o melhor é dar suplemento ou mesmo secar o leite. As mães são todas (ou na sua esmagadora maioria) boas mães. Ninguém mais do que elas quer o melhor para o seu bebé. Ás vezes, custa muito assumir que se chegou ao limite, que é difícil de mais, ou doloroso de mais. Sentem que não se estão a "sacrificar" o suficiente, pelo seu bebé. Não devia ser assim. Não amamentar é uma decisão tão legítima como qualquer outra. Há outras soluções. Nenhum bebé deixa de crescer saudável por isso.
Mas também há muitos casos em que a amamentação é comprometida, por desconhecimento, ou falta de ajuda.
Desde logo, como em tantas funções do corpo, a parte psicológica joga um papel fundamental. É o cérebro que segrega as hormonas essenciais para a produção do leite, a prolactina e a ocitocina. E este é um dos casos em que "querer é poder", é mesmo.
Depois, numa sociedade com cada vez menos nascimentos, poucas são as mulheres que tiveram a oportunidade de ver amamentar, antes de terem os seus bebés. Quando digo ver amamentar, refiro-me de perto, a alguém próximo, a quem se pode fazer perguntas, de quem se pode aprender. Antigamente, esta experiência passava de mães para filhas, das irmãs mais velhas, para as mais novas. As mulheres mais jovens viviam cercadas de outras mais velhas, com filhos.
Por outro lado, vivemos também numa sociedade muito asséptica e muito estética, em que uma mulher a amamentar é muitas vezes considerado, feio, sujo e até imoral, ou chocante. Nem todas as mulheres se sentem à vontade para amamentar os seus filhos em locais públicos. Ter de se esconder, ou "resguardar" para amamentar a cada duas, três horas, é, no mínimo, incómodo e inibidor do desejo de amamentar de uma forma prolongada.
Para uma mulher que esteja firmemente empenhada na amamentação, não há obstáculos que a possam impedir, desde que confie na sua capacidade natural para o fazer e se rodeie de alguma ajuda de alguém mais experiente. Se o médico não tem tempo, pode pedir ajuda a uma enfermeira. Se a mãe também não amamentou, ou experimentou dificuldades, pode recorrer à ajuda de uma prima, de uma amiga. Ou, quando não se tem nada disso, é sempre possível procurar uma doula, ou alguma organização das que se dedicam à amamentação.
Quando uma mulher não quer amamentar, não é feliz a fazê-lo, não deve sentir-se menos mãe, nem menos mulher por isso, nem deixar que ninguém a julgue. Afinal, o mais importante para um bebé, é uma mãe feliz e bem com ela própria.
Vivam a vossa maternidade da forma que escolheram, felizes, sem culpas e"curtindo" muito os vossos bebés!
Associação Doulas de Portugal: http://www.doulasdeportugal.org/pt/home
SOS Amamentação: Rua João Chagas, 161-2ºDto, 2795-102
Linda-a-Velha
Telefone: 213 880 915 / 934
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